os primeiros passos e opiniões formadas, uma turma e algumas cabeças pensantes, diga-se de passagem muito críticas, deu nisso!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Francine Bandeira - Introdução ao Jornalismo-APELIDOS

Suzana, a Louca
Há quem diga que seu desvario todo é fingimento, assim como tem gente que jura que a coitada é assim por culpa da esquizofrenia que corrói sua razão, mas o que muitos não sabem – os moradores mais recentes – é que a Louca tem uma história digna de roteiro de novela mexicana.
Há uns trinta anos, a família Baptista era bastante conhecida nas voltas do bairro Primor, em Sapucaia do Sul. O patriarca, depois de perder sua mulher, dedicou-se apenas a vender e comprar terrenos do bairro, aumentando, assim, sua invejável fortuna. Ele tinha uma filha que, na época, tinha por volta de vinte anos, era professora primária e morava com ele. O velho, a todo custo, tentava manter uma imagem de evangélico moralista, autoritário e de insuportável generosidade, porém, como em toda história, um dia a verdade vem à tona, e ela veio numa manhã de novembro, assaltando João Baptista aos setenta e oito anos de idade. Eis que, dois dias depois, a verdade se personifica em um advogado que trazia consigo um documento que destinava cinco dos oito terrenos que o velho tinha para um bastardo - fruto de um relacionamento extraconjugal que tivera na época em que sua esposa ainda era viva -, dois para o advogado e apenas UM para sua filha dedicada.
Quatro anos depois, Suzana, a Louca, já não tinha mais nada. Sem dinheiro, nem razão, sobrevive hoje graças à solidariedade de seus vizinhos. Ela cria gatos, vaga pela rua toda esfarrapada, não reclama quando alguns dependentes químicos batem em sua porta para roubar algumas quinquilharias que ainda possui... E, tomada pelos surtos que ela, lá uma vez que outra, tem, bate nas casas que eram propriedade de seu pai exigindo que os moradores devolvam o terreno. Alguns a expulsam com violência, outros com compreensão. Já não se pode dizer com certeza que idade a Louca tem, nem mesmo podem dizer se essa história é invenção que passa de cerca em cerca, a única certeza que os moradores da rua têm é que aquele cheiro de erva queimada, que deixa as roupas no varal com mau cheiro, vem da casa dela.

Francine- Introdução ao Jornalismo    Unisinos

2 comentários:

  1. Smepre muito bom o que a Fran escreve, sabe descrever uma cena, um personagem ou uma situação de forma muito precisa.

    Marco Ries

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  2. Concordo com o colega acima. Muito bom o texto da Francine. Parabéns!
    Camila Cassepp

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